Dos primeiros passos como cabeleireiro em Portugal ao recomeço profissional nos Estados Unidos, Bruno Lestenski construiu uma trajetória marcada por técnica, mudanças, fracassos, aprendizados e reconstrução. Aos 31 anos, especialista em loiros com naturalidade e gerente do Santtee Beauty Salon, ele não se vê como alguém que finalmente “chegou lá”. Para Bruno, chegar significa correr o risco de parar. E parar, para ele, nunca foi uma opção.
Aos 20 anos, Bruno não imaginava que o cabelo se tornaria o centro de sua vida profissional. Sua trajetória havia começado em outra direção. Antes dos salões, das fórmulas de coloração e das técnicas de descoloração, havia a contabilidade. Ele estudou, trabalhou na área e chegou a ocupar uma posição profissional estável.
A mudança aconteceu quando decidiu deixar aquela estrutura para trás e seguir para Portugal. Foi no país europeu que surgiu a oportunidade de fazer um curso de cabeleireiro. O que poderia ter sido apenas uma nova possibilidade profissional rapidamente se transformou em uma paixão.
Conforme o curso avançava, Bruno percebia que queria aprender cada vez mais. Entre as diferentes possibilidades da profissão, uma área despertou especialmente sua atenção: a química capilar.
Coloração, descoloração e transformação passaram a fazer parte de sua rotina. Naquele momento, não existia a certeza de alguém que acreditava já ter encontrado seu grande talento. Havia algo mais simples e, talvez por isso, mais importante: ele gostava daquilo. Mais do que gostar, descobriu que amava fazer.
E queria continuar.

Aprender primeiro a trabalhar
Depois de concluir o curso, Bruno conseguiu seu primeiro emprego em um salão em Portugal. Era um estabelecimento de perfil low cost, com preços acessíveis e grande fluxo de clientes.
Ali, não havia muito espaço para hesitação. Era preciso atender, executar o serviço e seguir para o próximo cliente. O ambiente acabou ensinando uma habilidade que os cursos dificilmente conseguem transmitir da mesma forma: agilidade.
O volume de atendimentos obrigava o jovem profissional a trabalhar rapidamente, desenvolvendo ritmo e capacidade de adaptação.
Depois de alguns meses, porém, Bruno decidiu buscar um novo desafio. Deixou aquele ambiente e passou a trabalhar em um salão maior, sofisticado e localizado em uma região nobre.
Se o primeiro emprego havia lhe ensinado velocidade, o segundo começaria a lhe ensinar refinamento profissional.
Durante aproximadamente dois anos, observou diferentes profissionais, absorveu técnicas, estudou e começou a desenvolver uma identidade própria. Aprendia com um, observava outro, testava, pesquisava e buscava constantemente melhorar.
Foi nesse período que conheceu o profissional que considera responsável por uma das maiores viradas técnicas de sua carreira.
Especializado em loiros, esse profissional era proprietário de outro salão e tinha uma atuação muito voltada para a área que começava a despertar cada vez mais o interesse de Bruno. Depois de deixar uma sociedade e decidir abrir seu próprio espaço, convidou Bruno para trabalhar com ele.
Bruno aceitou.
O profissional viajava ao Brasil para participar de cursos e, ao retornar a Portugal, compartilhava com Bruno parte do conhecimento adquirido. Técnicas, conceitos, formas diferentes de trabalhar a descoloração e maneiras de construir um loiro passaram a fazer parte de seu repertório.
Bruno permaneceu com ele por pouco mais de dois anos. Quando olha para trás, reconhece diretamente a importância daquele período: grande parte da bagagem técnica que possui hoje na área dos loiros começou a ser construída ali.
Mas a carreira, que até então parecia avançar de maneira relativamente linear, estava prestes a encontrar sua primeira grande ruptura.

Quando talento não basta
Durante esse período, Bruno conheceu o homem que se tornaria seu companheiro. Os dois decidiram abrir um salão.
Parecia o próximo passo natural.
Bruno já possuía experiência profissional, havia trabalhado em diferentes ambientes, acumulava conhecimento técnico e começava a dominar justamente a área que mais o interessava.
Mas existia uma diferença fundamental entre saber fazer cabelo e saber administrar uma empresa.
O salão que conseguiram abrir estava distante do padrão dos estabelecimentos onde Bruno havia trabalhado anteriormente. Era um pequeno salão de bairro, estruturado dentro das condições financeiras disponíveis naquele momento.
O negócio permaneceu aberto por aproximadamente um ano e meio.
E não deu certo.
Bruno fala daquele período sem tentar suavizar a experiência. Foi, segundo ele, um momento em que chegou ao fundo do poço.
Hoje, consegue analisar aquele fracasso com uma distância que não possuía naquela época. Não houve apenas uma causa. Faltaram recursos financeiros, experiência administrativa e preparo para assumir o papel de empresário. Algumas decisões também foram tomadas sob forte influência emocional.
A experiência acabou ensinando uma das principais lições de sua trajetória: talento não é suficiente para administrar um salão.
O problema era que Bruno ainda não conseguia separar as duas coisas. Se o salão havia fracassado, talvez aquilo significasse que ele também havia fracassado.
A dúvida começou a atingir justamente aquilo que, até então, parecia mais sólido: sua confiança como cabeleireiro.

A escolha de ir embora
Enquanto o negócio enfrentava dificuldades, sua vida pessoal também passava por um momento delicado.
Bruno tinha um primo vivendo nos Estados Unidos. Em uma conversa entre os dois, surgiu uma possibilidade: o primo poderia ajudá-lo a começar uma nova vida no país.
Bruno enxergou ali uma oportunidade.
Sentou-se com o então companheiro e explicou que queria partir. Queria que ele fosse junto.
A resposta foi negativa.
Com o relacionamento já fragilizado e a vida profissional atravessando uma crise, Bruno tomou uma decisão. Não deixaria aquela oportunidade passar. Se o companheiro não queria acompanhá-lo, cada um seguiria seu caminho.
Entre a decisão e a chegada aos Estados Unidos transcorreram aproximadamente quatro meses.
Para Bruno, não se tratava simplesmente de fugir de uma vida que havia dado errado. Era a possibilidade de construir uma nova chance.
Mas a nova vida começaria de uma maneira que ele talvez não imaginasse.

Longe das tesouras
Bruno chegou aos Estados Unidos esgotado.
O fracasso profissional havia deixado marcas que iam muito além de uma empresa que não funcionara. Ele começou a questionar a própria capacidade.
Talvez não fosse suficientemente bom.
Talvez tivesse interpretado errado aquilo que sentira anos antes.
Talvez a profissão realmente não fosse para ele.
Decidiu abandonar o cabelo.
Seu primo possuía uma empresa de pintura, e Bruno começou a traba



